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QUE TÉDIO!
“Abro os olhos sob o mesmo teto todo dia, tudo
outra vez. Acordo, um tapa no relógio a mente tá vazia, são dez pras seis. Hoje
a morte do meu ego tá fazendo aniversário, será que eu vou chegar, chegar ao
fim de mais um calendário, eu não sei. Eu não sei, eu não sei, é tudo sempre
igual.”
Resgate (Dez pras seis)
Esta era
uma época muito quente, o verão mais causticante de décadas. Não chovia há
muito tempo, o céu estava sempre limpo e o sol brilhava naquele dia eufórico.
Era tempo de aproveitar a praia, reunir a família e os amigos para um
churrasco, mas Sofia estava carrancuda no sofá achando que ninguém poderia ser
mais infeliz que ela. Preparava-se para dar continuidade à leitura que começara
há alguns dias e estava ansiosa para acompanhar o final da história. Por tudo o
que Sofia passara achava que esse era o momento mais terrível de sua vida, que
vivia um verdadeiro inferno, pensava em minimizar sua angústia com uma boa
leitura, distrair-se talvez.
Sofia
evitava pensar a respeito do que ocorrera, mas era inevitável. Quando seu pai
morreu seu mundo ruiu diante de seus olhos, quanto mais tentava entender e
descobrir porque isso acontecera, mais dúvidas surgiam. Sua mente divagava por
pensamentos muitas vezes sem nexo, sua fixação por respostas, não lhe permitiam
ter paz. Além deste acontecimento fatídico, fizera algumas escolhas erradas,
magoara algumas pessoas, como sua mãe, e isso se tornou um peso ainda maior em
sua consciência. Sua mãe ligava quase todos os dias desde que ela decidira
morar sozinha para ter certeza de que sua filha estaria bem, era pura preocupação
de mãe. Sofia tratava-a muito bem, mesmo convivendo com a dúvida de que fora
negligente com seu pai tornando-se, em partes, culpada pelo ocorrido. Esses pensamentos
que a perseguiam fizeram com que não conseguisse manter uma convivência
agradável com sua mãe e com seu irmão.
Não tinha
uma vida difícil em termos de condições financeiras e por ser tão jovem, tinha
muito o que viver e muitas oportunidades surgiriam em sua vida, mas sentia-se
consumida e machucada, levava uma vida miserável. Quanto maior fosse sua busca
por algo que preenchesse seu vazio, por respostas, por paz, maior era sua
decepção. Como se o mundo conspirasse para boicotar sua alegria e tramasse para
que tudo desse errado.
Sofia era uma
garota muito calma e sua vida nunca foi muito empolgante, contudo os últimos
acontecimentos tornaram seus dias insuportáveis. Já não aguentava ter que
acordar todos os dias para fazer as mesmas coisas. Não gostava muito do seu emprego,
porque trabalhava em uma loja de departamentos e fazia um pouco de tudo, desde
reposição de mercadorias nas prateleiras, atendimento aos clientes e qualquer
outra coisa que precisasse ser feita.
Não tinha
muitos amigos, pois se mudara fazia pouco tempo, então nos finais de semana
ficava em casa assistindo televisão sozinha ou lendo algum livro no apartamento
que alugara por conta própria até encontrar uma colega para dividir o aluguel e
as outras despesas. Desde que se mudou para outra cidade, Sofia ainda não tinha
visitado sua mãe, que tentava superar a morte de seu pai. As intempéries da
vida não eram muito justas com ela, mesmo sendo tão nova tinha responsabilidades
e tinha que lidar com um fato avassalador como estes.
Esta era a
vida de Sofia, marcada pelo passado e sem um rumo certo que pudesse lhe dar
alguma vantagem ao enfrentar o futuro. Os dias pareciam iguais, fazia sempre as
mesmas coisas, ia sempre aos mesmos lugares, não se interessava em conhecer
outras pessoas com quem pudesse dividir alguns momentos de alegria. Uma palavra
que a descreveria bem naquele momento era tédio, além de um mau humor que
acompanhava-a por onde fosse.
Numa tarde
de sábado, com toda aquela movimentação nas ruas, Sofia lia um livro que dava à
sua mente a oportunidade de adentrar ao universo lúdico nunca antes conhecido.
Saboreava uma leitura que era feita sem nenhuma pressa, sem interrupções. Estava
ansiosa por descobrir qual o final da história que acompanhava há alguns dias.
Sentada em uma poltrona da sala, segurava o livro com uma mão enquanto a outra
parecia caída sobre o encosto, como se descansasse após ter cumprido seu turno.
Seus pés estavam sobrepostos em uma cadeira que pusera ali especialmente para
aquele propósito. O tempo passava e já não era mais sentido por Sofia que
bocejava lentamente até fechar a boca por completo e preparar-se para em breve
bocejar novamente. Era seu dia de preguiça e descanso. Nada poderia ser melhor
que isso, a leitura a levava a lugares nunca vistos e a ter sensações nunca
sentidas. Não se ouvia absolutamente nada, como se os vizinhos de seu bloco cooperassem
com ela naquele momento único. O calor do dia era refrescado com a brisa que
entrava pela janela movendo suavemente as cortinas da sala.

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