O irmão do filho pródigo
Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é
por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?
Romanos 8:31-32
Certa vez ao
ler a parábola do filho pródigo que se encontra em Lucas 15:11-32, algo me
chamou a atenção. Cada vez que lemos a Bíblia,
Deus nos fala de forma diferente. A
leitura da Palavra nos possibilita ouvir a Deus. Pois desta forma Paulo
ensinou: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus.” Ele
quis mostrar que a fé é por ouvir, mas não ouvir a Palavra, e sim ouvir a Deus
através da Palavra. Quando estava lendo a parábola do filho pródigo percebi que
Jesus não se preocupou apenas em falar sobre o filho que depois de ter errado
se arrepende e volta, ou apenas do pai que prontamente o recebe, acolhe e
honra.
A parábola do
filho pródigo tem também a intenção de relatar a reação de um terceiro
personagem pouco enfatizado quando nos lembramos da estória. Ela fala de um
irmão que não se alegra ao ver o caçula retornar, pois o mesmo gastou parte da herança e mesmo tendo feito
isso é acolhido recebendo roupas novas; perdoado, pois recebe calçados e só os escravos andavam
descalços e honrado quando ganha um anel. Ao ouvimos a crítica dele entendemos
que é natural que tenha sentido ciúmes. Se trouxermos isso para nossa realidade
veremos que o irmão mais velho possuía reais razões para se chatear. O que seu
irmão havia feito não foi um ato de irresponsabilidade que tenha trazido danos
apenas para si. Ele teve a infelicidade de gastar parte do patrimônio da
família prostituindo-se. Como mostra o versículo 30: “Mas quando volta para
casa esse teu filho, que esbanjou os teus bens com as prostitutas, matas o
novilho gordo para ele.”
Se ouvirmos
algo semelhante nos dias de hoje sentiremos um pouco de revolta ao pensar na
inconsequente atitude de um filho que aja de forma tão egoísta e irresponsável.
No entanto, por trás de uma reinvindicação ‘justa’ há a manifestação de um
sentimento mesquinho. Sua única preocupação é com o que seu irmão recebeu de
seu pai e ele não. O que move seu coração é algo tangível, palpável. O dinheiro
é mais importante que seu irmão, ao ponto dele não se importar com o estado em
que seu irmão voltou para casa, se bem ou não e sim com quanto ele conseguiu desperdiçar.
O amor inalterável do pai incomoda-o, pois ele quer justiça, ele espera ser
recompensado enquanto que seu irmão precisa ser castigado. Tem algo que salta
através de suas palavras e de sua atitude que mostra uma característica sua: a
ausência da graça.
Diante de um
ato de graça demonstrado pelo pai por um filho que arrependido volta para casa,
Jesus quis mostrar também a atitude mesquinha, porém com justificativas
‘aceitáveis’, do filho que age de forma correta, mas o pai não o recompensa.
Humanamente falando ele estava exigindo o que era seu por direito, ou seja, ter
reconhecimento por tudo o que era e o que havia feito. E quantas vezes achamos
que temos que ser reconhecidos? Demonstramos ciúmes quando vemos outra pessoa
sendo honrada. Nossas justificativas muitas vezes são plausíveis e achamos que
se pra nós conquistarmos algo o caminho é difícil, não aceitamos que pra outras
pessoas não seja. Isso nos incomoda, não conseguimos nos alegrar com os que se
alegram. Somos medíocres demais pra isso. Certa vez ouvi alguém dizer que não
acredita que um criminoso é perdoado se ele se arrepender minutos antes de
morrer. Minha condição humana tem dificuldades para entender que parâmetro Deus
utiliza para estabelecer quem recebe o perdão, mas o ladrão da cruz me faz ver
que o único requisito é um arrependimento real e não o tempo que temos de
caminhada com o Senhor.
O perdão é
imediato, não é gradativo. Se nos arrependemos automaticamente somos perdoados
por Deus, isso é bem difícil de compreendermos, pois nossa natureza pecaminosa
não consegue entender o grande amor de Deus. As consequências dos nossos
pecados virão, quem praticou algum crime deve pagar diante da justiça, e quem
cometeu erros menos graves também há de arcar com as consequências de seus
atos. Mas a parábola nos impacta com a incrível capacidade que o Pai tem de não
demonstrar nenhuma objeção em receber seu filho, e de tentar convencer o filho
mais velho a entrar e participar da festa como nos mostra o versículo 28: “O
filho mais velho encheu-se de ira. Então seu pai saiu e insistiu com ele.” O
pai não demonstra preferência por nenhum dos filhos, mas demonstra maior graça
para o que mais precisava, o filho rebelde. Como vemos em Romanos 5:20 “... Mas
onde aumentou o pecado, transbordou a graça.”
Nós temos
muito do que nos arrepender e nos humilhar na presença de Deus, mas o fazemos
com restrições, afinal ‘não somos tão pecadores assim’. E é isso que nos impede
de sermos cheios da graça de Deus, nos achamos bons demais para ela. E quanto
aos viciados, aos marginalizados, às prostitutas? Quando alguém assim se
arrepende não consegue usar a mascara que usamos, pois eles sabem quem
realmente são e se rendem muito mais aos pés de Jesus pois está explícita a
necessidade de perdão em suas vidas. É por isso que muitas vezes Deus nos abate,
nos faz passar por situações em que somos humilhados ou ficamos enfermos, só
assim percebemos que não somos nada.
As igrejas têm
pecado brutalmente na forma como recebem os ‘desgraçados’, ou seja, os sedentos
pela graça de Deus. Se uma mulher entrar na igreja com roupas decotadas e batom
vermelho é olhada de cima a baixo e ninguém a cumprimenta porque ela é suja
demais e as pessoas não querem se misturar com esse tipo de gente. Muitos
visitantes se sentem julgados pelos olhares maldosos de pessoas ‘puras demais’.
Enquanto tantas igrejas se julgam acolhedoras, no entanto, não recebem a todos com
amor, principalmente os que são muito pobres, marginalizados e os que
visivelmente se encontrar à margem da sociedade. A igreja não sabe amar e não
demonstra a graça que de Deus tem recebido.
Enquanto
aquele que jamais pecou comia com publicanos e pecadores, demonstrava amor por
prostitutas, nós, pecadores somos santos demais para fazer isso. Quantas vezes
percebemos a ausência da graça entre nós mesmos quando alguns e outros irmãos
não se falam, não se suportam e até competem dentro da igreja. Por outro lado
somos congregacionais demais e priorizamos o acúmulo de cargos de liderança, as
festas e comemorações vãs que tão pouco contribuem para ganhar almas e prepara-las
para a vida eterna. Esquecemos que estamos aqui de passagem e temos que nos
preparar para o céu onde não haverá falsidade, orgulho e seremos todos iguais
diante do pai.
Diante de tudo
que tenho visto entre os cristãos uma pergunta que não consigo responder é:
Será que somos capazes de dar aos outros um pouquinho do que temos recebido do
Pai? Misericórdia, amor e graça que temos recebido, será que conseguimos
demonstrar pelos outros? Diante do que temos visto a resposta é não. Mas é
possível darmos um pouco do que recebemos? Não só podemos fazê-lo, como
devemos. Aquilo que o homem recebe de Deus e retém é o suficiente para si e
pode ficar satisfeito. Mas quando recebe e compartilha com os que também
precisam, multiplica-se cada vez mais. É algo sobrenatural, inexplicável. Se
você não tem sentido a unção de Deus sobre a sua vida, precisa se derramar mais
e não ter mais reservas diante do Pai, para que ele possa transbordar a graça,
o amor e a unção Dele em sua vida. Por isso cultive o amor pelas almas
perdidas. Deixe o Espírito Santo te fazer sentir o que Jesus sentiu quando
aquela mulher adúltera estava prestes a ser apedrejada. A capacidade de Deus de
amar incondicionalmente e perdoar é inigualável.
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