Sofrer
o dano. (Para ter o coração curado)
“Na
verdade é já realmente uma falta entre vós, terdes demandas uns contra os
outros. Porque não sofreis antes a injustiça? Porque não sofreis antes o dano?
I Coríntios 06:07
Sofrer o dano? O que Paulo quis dizer com isso? Que
língua é essa que ele falava? É difícil entender isso, porque estamos com o
coração carregado de orgulho e em nome dele descarregamos as nossas frustrações em
tudo, no mundo, no cachorro, no amigo, no parente mais próximo.
Somos ensinados de pequenos a não levar desaforo para
casa, a não sair apanhados, a não demonstrar fraqueza, a revidar. Isso está
enraizado em nós. Aprendemos a ter a resposta na ponta da língua, a não aceitar
afronta. E quando somos ensinados a perdoar, aprendemos que toda estória tem
dois lados e perdoamos porque existem mal-entendidos. Se soubermos que aquela
pessoa realmente teve a intenção de ferir, tudo muda nossa decisão em relação
ao perdão. Uma mulher pode enganosamente ser levada a pensar que deve perdoar o
marido que a traiu, porque ela foi uma esposa ruim e a culpada da traição. Um
pai perdoa seu filho rebelde, porque possivelmente lhe ofereceu uma educação
deficitária. Mas perdoamos quando sabemos que não há desculpas para o erro?
Perdoamos pelo simples fato de estarmos dispostos a livrar alguém de sua culpa?
Em Romanos 12:9 diz: “A ninguém torneis mal por mal;
procurai as coisas honestas, perante todos os homens.” Isso quer dizer que
mesmo que alguém tenha a intenção de nos causar dano, não podemos revidar, e isso
vai além do perdão tardio, trata-se de um perdão concomitante às agressões.
Abaixar a cabeça, calar diante da afronta, suportar a dor e a vergonha de
sofrer um agravo. Quanto estamos dispostos a renunciar por amor ao evangelho?
Não discutir com alguém que furou a fila, não revidar a um mal atendimento em
um órgão público, não brigar no trânsito nem buzinar desesperadamente, ouvir
alguém que você ama te ofender em silêncio. Para Paulo estas são as atitudes
que devem fazer sentido para nós, mesmo que não façam para o mundo. Sofrer o
dano, ficar no prejuízo, lidar com perdas, com a vergonha, passar humilhação.
Este é o evangelho genuíno que precisamos viver, não apenas pregar.
Quando agimos assim, demonstramos o amor que Cristo
demonstrou a pecadores, ladrões, assassinos. Em Isaías 53:07 diz: “Ele foi
oprimido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro,
e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca.”
Veja que a expressão: ‘não abriu a sua boca’ aparece duas vezes no mesmo
versículo. Ele foi cuspido, chicoteado, escarneceram dele e mesmo assim não
tentou se justificar. Não tentou se explicar, dar satisfação e dizer que tudo
aquilo era um mal-entendido, afinal, ele nunca havia cometido pecado. Ele não
tentou convencer as pessoas de que não merecia nada do que estava sofrendo, mas
quando sofremos uma injustiça tentamos esclarecer tudo para que todos saibam
que aquilo não deveria acontecer.
É difícil passar pela dor da traição ou de uma agressão e
estar disposto a liberar perdão genuíno e ser motivo de chacota porque ainda
andamos com aquela pessoa que nos feriu e que não é mais digna da nossa
amizade. E o perdão verdadeiro requer que a aliança seja refeita. É preciso
voltar a caminhar e reconstruir o que foi desfeito. Reconstruir a amizade, o
amor, o compromisso de cuidar e estar ao lado. É preciso estar disposto a
tratar bem quem te trata mal no momento em que se está sofrendo a injustiça.
Olhar para dentro do coração da outra pessoa e se compadecer de quem não
consegue amar sinceramente, ou não sabe. Amar a pessoa que mora na mesma casa
que moramos, a pessoa que dorme na mesma cama que dormimos, a pessoa que
prometeu fidelidade, assim como a pessoa que vimos pela primeira vez, que talvez
nem saibamos o nome.
O amor vê além das limitações dos outros, vê além da
maldade, vê além do egoísmo, vê além da falta de escrúpulos. O amor está
disposto a entregar o bem em troca do mal. O amor “tudo sofre, tudo crê, tudo
espera, tudo suporta”(I Coríntios 13:7. Temos que deixar nossas convicções de
lado e abraçar o evangelho de Cristo, que não se parece com nada do que aprendemos,
ouvimos, enxergamos, ou seja, o evangelho que descobrimos através das sagradas
escrituras. De entrega, de devoção. Que o Senhor nos capacite a conhecer este
evangelho para que seja colocado em prática nas nossas vidas para glória do seu
nome.
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